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Hoje é do jeito que achou que seria?

[ arredores de Tuparetama, hoje à tarde]

Sempre ouviremos o murmúrio do coro dos descontentes. As vozes dissidentes. As opiniões contrárias às nossas idéias, às nossas visões, ao nosso comportamento. Para muitos seremos também, em diversas ocasiões, parte desse coro, som dessas vozes, acusadores e censores.

Ainda bem que é assim, que há diversidade. Melhor será quando conseguirmos respeitar esse direito que os outros têm de ser, pensar e reagir contrários ao nosso, melhor será quando mesmo descontentes ou feridos ou melindrados, ainda assim permitir ao outro o exercício da discordância.

Nessa linha de pensamento, há outro aprendizado que os anos vividos (a tal experiência) me ensinaram: Independente do nosso querer, apesar da coerção dos hábitos e das tradições, a sociedade muda, progride, evolui. Os tempos presentes e futuros são sempre novos, renovados, diferentes do tempo que passou. Podemos nos manter presos lá atrás, podemos estar definitivamente condenados pelas circunstâncias da educação recebida a rejeitar essas mudanças, mas elas nos atropelam e seguem adiante, mesmo que nem nos demos conta dessa correnteza.

Eu tenho um mantra. É uma frase que aprendi depois que passei a estudar e freqüentar o espiritismo. É de uma simplicidade tremenda mas por isso mesmo inteligente, dita a Chico Xavier, ainda jovem, acossado por muitas e violentas críticas, por calúnias, por inúmeros mal-entendidos. A frase foi dita por sua mãe, já falecida, em espírito, quando Chico orava pedindo forças e orientação: “Tudo passa”.

Certezas, verdades, mentiras, convicções, calúnias, saúde, doença, amor, ódio, riquezas e misérias.... neste mundo em que estamos nada é definitivo, nada é eterno, tudo passa. Tempo, tambor do destino, disse Caetano.

Filófosos, poetas e repentistas pensaram e produziram sobre esse tema da efemeridade da vida humana com mais competência que eu, claro. Até um artista que ouço com muitas reservas como Oswaldo Montenegro conseguiu fazer uns versos tocantes, sob o título de A LISTA. Recebi os versos em PowerPoint por e-mail, dessas mensagens que todo mundo recebe e encaminha pra todo mundo, não sei por qual razão resolvi abrir o arquivo e ler, meu costume é apagar essas correntes por falta de tempo:

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais

Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar

Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora
Hoje é do jeito que achou que seria?
Quantos amigos você jogou fora

Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos... ninguém quer saber

Quantas mentiras você condenava
Quantas você teve que cometer
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você

Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais

Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos... ninguém quer saber
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você

Quando comecei a escrever estas notas na verdade estava pensando em falar sobre a necessidade da tolerância e do respeito às diferenças. Queria que alguém que me lesse pensasse comigo que até pode ser conservador, ser contrário a certas idéias, a certos comportamentos, mas que o respeito ao direito do outro de expor suas próprias idéias e exercer seus atos legais é uma necessidade urgente para a felicidade individual e o bem estar social.

Não faz muito tempo o homem era o dono da família e bater na esposa era uma coisa normal entre nós. Mulher solteira engravidar era motivo para expulsar a jovem de casa, a socorrer-se na prostituição. Filho de costureira, lembro de notícias de surras e xingamentos por causa do uso da mini-saia (coisa de quenga, alegavam) e da calça comprida (é roupa pra homem, criticavam). No clube social da cidade, o velho Pajeú Clube, somente moças de família entravam (ou seja, virgens) e o único negro permitido no salão era o Santana, exímio pé-de-valsa e exemplo de elegância, vencendo assim a discriminação pelo atalho da arte. Que escândalo –e proibido- eram a separação conjugal, o divórcio, um segundo casamento quando não amparado na viuvez. Tudo isso hoje nos parece tão distante. Tão risível se mostra a resistência daqueles que lutavam para conservar tal estado de coisas. Fico a imaginar como lamentaremos daqui a mais 30 anos, por exemplo, todo preconceito sofrido por aqueles que desejando ou amando alguém do mesmo sexo, não podem demonstrar nem vivenciar livremente este amor. Como nos sentiremos menores ao lembrar que apesar de toda nossa cidadania e apesar de todos nossos cursos e diplomas e ainda apesar de todo nosso cristianismo, compactuamos pelo silêncio em casa, na rua ou na escola com as humilhações diárias que essas pessoas fomos obrigados a enfrentar.

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